O Brasil registrou 18 casos de sarampo em 2026, sendo 16 deles no estado de São Paulo. O país segue classificado como livre da circulação endêmica da doença, mas o aparecimento de novos casos mantém o alerta entre especialistas e autoridades de saúde. A preocupação é que o vírus encontre grupos numerosos de pessoas sem proteção adequada e estabeleça cadeias de transmissão.
O risco de grandes surtos está ligado à cobertura vacinal, à concentração de pessoas não imunizadas em algumas regiões e à rapidez na identificação e controle dos casos. O clínico-geral Lucas Albanaz, diretor clínico do Hospital Santa Lúcia Gama, afirma que a ausência de circulação endêmica não significa que o país esteja completamente livre da doença. O sarampo pode voltar por meio de casos importados, principalmente com a circulação internacional do vírus.
“Um país pode apresentar cobertura vacinal razoável e, ainda assim, possuir municípios ou comunidades com grande acúmulo de crianças e adultos não vacinados”, diz Albanaz. O sarampo é uma doença infecciosa causada por um vírus altamente transmissível. A disseminação ocorre por partículas respiratórias liberadas ao tossir, espirrar ou falar. O vírus pode permanecer no ambiente por várias horas, facilitando a transmissão mesmo sem contato direto prolongado.
O infectologista André Bon, coordenador da Infectologia do Hospital Brasília, explica que o vírus é transmitido por aerossóis que ficam suspensos no ar. “Partículas respiratórias que ficam suspensas no ar por muitas horas podem conter quantidades significativas de vírus capazes de infectar outras pessoas”, afirma. A transmissão também ocorre antes do aparecimento dos sintomas mais conhecidos, o que dificulta a identificação imediata e favorece a disseminação.
Crianças pequenas e pessoas com o sistema imunológico comprometido estão entre os grupos mais vulneráveis. Crianças menores de 1 ano merecem atenção especial, pois muitas ainda não completaram o esquema de vacinação. Entre as complicações mais comuns está a pneumonia, uma das principais causas de morte associadas ao sarampo em crianças pequenas. A doença também pode causar encefalite, uma inflamação do cérebro que pode deixar sequelas neurológicas.
Na gestação, a infecção pode aumentar o risco de pneumonia materna, parto prematuro, perda gestacional e nascimento de bebês com baixo peso. A vacinação é a principal ferramenta para impedir que o sarampo volte a circular de forma sustentada. Albanaz estima que cerca de 95% da população precise estar protegida com as duas doses da vacina para reduzir o risco de surtos. “Esse percentual deve ser alcançado de forma homogênea, não apenas na média nacional, mas também em cada município, bairro, escola e comunidade”, afirma.
A principal vacina é a tríplice viral, que também protege contra caxumba e rubéola. No calendário brasileiro, as doses são aplicadas aos 12 e aos 15 meses. Em situações de surto, as autoridades podem adotar estratégias como vacinação de crianças a partir dos 6 meses e ações de bloqueio para quem teve contato com casos suspeitos.
O sarampo foi eliminado do Brasil em 2016, mas voltou a circular com a queda da cobertura vacinal e a entrada de casos importados. No início de 2025, o país voltou a ser considerado livre da circulação endêmica. A classificação, porém, não elimina a possibilidade de novos casos. Pessoas infectadas em outros países podem trazer o vírus, e a presença de grupos não imunizados favorece a transmissão.
A velocidade na identificação dos casos é essencial para impedir que uma infecção isolada vire surto. Pessoas com febre, manchas avermelhadas na pele, tosse, coriza ou conjuntivite devem ser avaliadas, principalmente com histórico de viagem internacional. A investigação rápida permite notificação à vigilância epidemiológica, isolamento do paciente e vacinação de bloqueio.
O principal cenário de preocupação é a combinação entre a entrada do vírus e comunidades com baixa cobertura vacinal. Em regiões com muitas pessoas não imunizadas, um único caso importado pode gerar uma cadeia de transmissão. A média nacional pode esconder bolsões de baixa cobertura. Escolas, creches e espaços de convivência são ambientes de atenção.
“O Brasil pode voltar a enfrentar grandes surtos, principalmente se o vírus chegar a comunidades com baixa vacinação. Mas, com cobertura elevada e homogênea, detecção precoce e resposta rápida, casos importados podem ser contidos antes que se transformem em uma emergência nacional”, conclui Albanaz.

